Mari Hirata: uma presença cheia de alegria, cores e sabores

Mari Hirata: uma presença cheia de alegria, cores e sabores

3 de junho de 2021 0 Por bloghideko

No dia 30 de maio, recebemos a triste notícia de que a chef e pesquisadora de gastronomia Mari Hirata se foi, aos 61 anos de idade. Um câncer a levou, deixando por aqui muitos admiradores saudosos. Entre eles, Hideko Honma, que tinha muita estima por Mari, conhecida por seu talento, conhecimento e alegria.

Mari Hirata era jornalista de formação, mas se encontrou no mundo da gastronomia. Começou aprendendo a fazer doces e pães na França, voltou ao Brasil para trabalhar como chef pâtissière do hotel Caesar Park e depois foi ao Japão estudar cerimônia do chá. Em dado momento, foi trabalhar na Toraya, tradicional casa de wagashi (doces japoneses) que existe desde o início do século 16, em Kyoto. Casou-se com Hisao Sato, também da Toraya, com quem teve dois filhos.

Quando o marido foi enviado para Paris para abrir o Café Toraya, Mari foi junto e fez um curso no Le Cordon Bleu, onde se destacou como uma aluna brilhante, e passou a atuar como chef e pesquisadora de gastronomia. Viveu pouco mais de 20 anos no Japão, onde dava consultoria de culinária brasileira e fazia tours gastronômicos para brasileiros em Tokyo. Vinha regularmente ao Brasil, para dar aulas, também.

Mari foi uma das chefs convidadas para o Sukiyaki do Bem, na edição de 2018, e seu arroz japonês com raízes brasileiras foi marcante, assim como era sua personalidade, alegre e generosa. Hideko compartilha aqui um pouco das boas lembranças e conversas que teve com a chef.

Mari Hirata e Hideko Honma no hotel Tivoli Mofarrej, em 2018. Foto: Jo Takahashi

 

O primeiro encontro

A ceramista conheceu Mari no Japão, em 2012, em um jantar realizado na Embaixada do Brasil em Tóquio, por ocasião da exposição “Hideko Honma a 1300 ºC”, realizada no local.

“Já tinha ouvido falar muito sobre a sua generosa pessoa e a técnica empregada no seu trabalho. Aproximei-me da Mari san por ocasião da minha primeira exposição na Embaixada do Japão em Tokyo, em 2012.

O embaixador do Brasil na época, Marcos Bezerra Abbott Galvão, reuniu em sua residência a diretoria da Mitsubishi, patrocinadora da exposição, e meus amigos e parentes que moravam em Tokyo. O embaixador queria que eu conhecesse a Mari: uma brasileira que cozinhava e ensinava culinária brasileira com técnicas japonesas, e que fazia o maior sucesso em Tokyo. E lá estava ela, com seu sorriso enorme, cheia de simpatia e assuntos que não acabavam mais. Uma delícia!

Era uma pessoa que passeava por vários universos de saberes. Seu trabalho, voltado para as receitas bem brasileiras, com a expertise das técnicas japonesas, era um show no Japão. E as suas receitas japonesas, que muitas vezes lembravam a cozinha da obaatchan, com aquele toque de brasilidade e espontaneidade, nos deixavam impressionados aqui no Brasil.  Além disso, ela tinha história e explicação técnica para todos os ingredientes, principalmente os exóticos, e suas possíveis misturas.

Lembro-me que, certa vez, almoçávamos com o jornalista Josimar Melo em um dos restaurantes do Marcelo Fernandes, e o assunto eram os muitos pequenos e invisíveis lugares para se comer bem em Tokyo. Ela contava detalhes destes e dos restaurantes mais sofisticados do Japão. Viajávamos junto com as suas histórias.”

André Saburó (de azul) e Mari Hirata no Sukiyaki do Bem 2018. Fotos: Nikko Fotografia

Mari Hirata no Sukiyaki do Bem 2018

No começo de 2018, Hideko iniciou uma pesquisa sobre chawan e, junto com essa peça, o arroz também emergia nesse universo.

“Lembrei-me da Mari Hirata e do preciosismo nas suas receitas de arroz e a convidei para ser uma das chefs voluntárias para o Sukiyaki do Bem 2018. Ela aceitou prontamente, dizendo que para ela era uma alegria cozinhar e colaborar com o Ikoi no Sono. Ela manifestou querer muito estar lado a lado com outros chefs e dezenas de estudantes e aprendizes de gastronomia nesse evento para 350 convidados. O jantar beneficente aconteceu no hotel Tivoli Mofarrej, que a recebeu com uma equipe impecável. Mari esbanjou generosidade e alegria durante todo o tempo. Os aprendizes estavam super atentos e os famosos chefs estavam curiosos e solícitos ao seu lado durante o preparo e a montagem do arroz na cerâmica. Todos a auxiliaram!

Durante o planejamento, a única exigência, além de toda a liberdade de criação, era a realização de vários testes ainda no Japão. Eu precisaria enviar a amostra da cerâmica que eu já havia criado para servir a sua receita de arroz. Depois, já no Brasil, ela faria a adequação com ingredientes brasileiros. Ela pesquisou várias raízes, tubérculos e bulbos do Brasil.”

Folha de sasa (um tipo de bambu) envolve um gohan com raízes brasileiras, criação de Mari Hirata

Uma conversa sobre o vazio

A peça que Mari recebeu de Hideko para acomodar sua receita de arroz não era uma chawan tradicional, mas uma outra, que lembrava uma garrafa.

“Durante o Sukiyaki do Bem, tivemos a oportunidade de conversar, e eu queria satisfazer uma grande curiosidade: eu não havia enviado uma chawan para a Mari, por ser um objeto óbvio, e queria um retorno sobre essa provocação. Ela confessou que sentiu estranhamento a princípio, mas percebeu a boa provocação e foi em frente, buscando a criativa sabedoria dos japoneses. Pensou, então, que uma peça inspirada em uma garrafa lembrava um barco, que por sua vez lembrava uma mensagem que atravessa continentes e mares. Em uma peça retangular, um pequeno monte de arroz iria muito bem, mas era preciso haver algo fresco da natureza que abraçasse o arroz, respeitasse o espaço vazio e potencializasse a forma e textura da cerâmica. Assim, enquanto o evento fervilhava, conversamos sobre a importância do espaço vazio. Foi lindo!”

Mari Hirata com os chefs e sommelières que participaram do Sukiyaki do Bem em 2018.

 

Receitas de Mari Hirata

Mari Hirata publicou dois livros: “Minhas Receitas Japonesas” (Publifolha) e “Mari Hirata Sensei” (BEĨ Editora), em parceria com a ex-aluna Haydée Belda.

“Quando o livro “Mari Hirata Sensei” passou aqui pelo atelier, tentamos fazer aquele pão maravilhoso. O meu não foi muito feliz, mas algumas de minhas alunas o fizeram muitas vezes e adoraram. Tentarei novamente!”

Um legado que ilumina

Em seu perfil do Instagram, onde compartilha suas reflexões, Hideko fez uma homenagem a Mari Hirata:

“Tempo e Paciência …. amigos preciosos, profissionais conscientes, aniversários, festas, luto… passam. A certeza do agora é de que a cada passagem uma maravilhosa experiência de aprendizado nos marca para sempre, iluminando o legado da nossa existência. Muito obrigada, Mari Hirata. Siga em paz, alimentando os anjos com aquele arroz japonês recheado de raízes brasileiras de todas as cores e sabores.”